A reclamação como sensor do território
Cada cidadão observa permanentemente uma pequena parte do município. Quando comunica um
problema está, na prática, a gerar um dado sobre o território. Tradicionalmente essa
informação fica escondida em caixas de email, documentos e texto não estruturado.
Acumulada ao longo do tempo, pode ser representada num mapa e agregada por freguesia,
bairro, rua, categoria, departamento, período, prioridade e sentimento. Com volume
suficiente torna-se possível responder a perguntas como «porque aumentaram as
reclamações de pavimento nesta freguesia nos últimos três meses?» ou «quais são as
ruas com maior concentração de reclamações de estacionamento?».
Proposta de resposta, e memória institucional
Depois de analisar a reclamação e consultar a informação relevante, o agente prepara uma
proposta de resposta. O técnico continua a controlar o processo — aprova, altera,
complementa ou rejeita. O objetivo não é retirar responsabilidade à organização; é
diminuir o trabalho necessário para chegar à decisão.
Quando um técnico aprova ou altera uma resposta, essa interação pode tornar-se conhecimento
institucional. Constrói-se uma estrutura que liga pergunta, contexto, categoria,
departamento, resposta proposta, resposta aprovada e resultado. O conhecimento deixa de
estar apenas na cabeça das pessoas ou espalhado por milhares de emails.
Human-in-the-loop: três níveis, não um
Nem todas as decisões devem ser automatizadas, e nem todas as organizações querem o mesmo
nível de autonomia. O nível adapta-se ao risco e à maturidade digital de cada entidade.
- Assistência — a IA resume, classifica e extrai informação. Tudo o
resto é humano.
- Recomendação — a IA analisa, classifica, consulta conhecimento e
prepara a resposta. O humano valida antes do envio.
- Automação supervisionada — processos que cumpram regras previamente
definidas seguem sozinhos. O humano recebe os casos excecionais.
O silêncio custa mais do que a demora
A satisfação do cidadão depende também do que acontece enquanto o problema está a
ser resolvido. Mesmo que a Câmara esteja efetivamente a tratar do assunto, o munícipe pode
interpretar o silêncio como falta de ação. Um agente pode acompanhar o estado do processo,
apoiar comunicações intermédias e pedir internamente uma atualização quando um prazo é
ultrapassado. O objetivo não é só responder mais depressa — é reduzir o período em
que o cidadão não sabe o que está a acontecer.
A análise de sentimento serve de indicador agregado da experiência de atendimento, não para
classificar cidadãos. Uma reclamação pode entrar fortemente negativa e terminar, depois de
resolvida, em terreno positivo — e essa evolução é mais interessante do que
o sentimento inicial. A pergunta deixa de ser apenas «quantas reclamações recebemos?» e
passa a ser também «como mudou a perceção do cidadão durante o processo?».
Arquitetura preparada para o setor público europeu
Uma solução de IA para a Administração Pública tem de ser pensada desde o início com
privacidade, segurança e governação. A arquitetura pode assentar em infraestrutura e
processamento de dados em data centres na União Europeia, incluindo a Alemanha.
Inclui minimização de dados, controlo de acessos, logging, rastreabilidade,
separação entre dados municipais e modelos, políticas de retenção, supervisão humana,
controlo sobre as bases de conhecimento e auditoria das operações do agente — para suportar
os requisitos aplicáveis do RGPD e do EU AI Act, conforme
o contexto e a utilização concreta.
Do tratamento de reclamações à inteligência municipal
A mesma lógica configura-se conforme o organograma e as competências de cada entidade. Num
município grande, o valor está no volume de interações, nos vários
departamentos e na integração com sistemas internos. Num município pequeno ou
médio, está na automação de tarefas administrativas que hoje consomem parte
significativa da capacidade das equipas. Numa Junta de Freguesia, está em
equipas pequenas que gerem atendimento e ocorrências para milhares de cidadãos.
O tratamento de reclamações é o primeiro caso de utilização. A mesma arquitetura pode depois
absorver pedidos de informação, sugestões, participações, ocorrências, fiscalização,
atendimento geral, pedidos administrativos, comunicação interna, gestão documental e
acompanhamento de processos. Por isso o Autark-IA é melhor entendido como uma
plataforma de IA para atendimento e inteligência municipal do que como uma
ferramenta de reclamações.
Mais sobre a solução na página do AutarkiA.